1. Oficina 1: "Reencantar o mundo contando histórias" Facilitadora: Margareth Marinho Oficina literária baseada em histórias autorais ou de domínio popular, com dinâmicas de sensibilização, expressividade e roda de histórias. Os assuntos abordados serão: o prazer do texto; o contexto histórico das histórias; fábulas, contos e lendas; o lúdico na literatura; a importância de contar histórias nos dias de hoje e a genialidade de Monteiro Lobato e seus personagens. Currículo resumido Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Licenciada em Língua Portuguesa (Licenciatura Plena) pela FERP/RJ. Professora Adjunta na UNIPAC/Juiz de Fora desde 2001 nos cursos da área de saúde e de Administração, com a disciplina Leitura e Produção de Textos. Professora da Prefeitura de Juiz de Fora/MG com vários projetos educacionais e culturais, inclusive premiados., atuando desde 2012 como Coordenadora de Projetos de Incentivo à Leitura na Biblioteca Municipal Murilo Mendes.
2. Oficina 2: “A oralidade: No principio era o verbo - Os fios da memória presentes na voz do Contador de histórias.” Facilitadora: Andréa Cozzi Ementa: Discutir sobre a necessidade da valorização da literatura oral enquanto possibilidade de problematização de questões relacionadas à identidade, memória e diversidade cultural amazônica. Refletir sobre o diálogo existente entre o contador de histórias tradicional e o urbano. A oficina também deseja trazer para o debate pontos ou atitudes que qualificarão o contato do contador/ouvinte com o universo das narrativas, como: conhecimento do acervo, a seleção dos textos, a preparação das histórias, a criação de roteiros, a voz, o ritmo, utilização de elementos cênicos, o corpo, a vestimenta, improvisação, espontaneidade, emoção. Através das vivencias e reflexões, almejamos criar um movimento voltado para a literatura oral nos espaços educativos, na qual temporalidades e territorialidades não sejam limites para sentarmos e ouvirmos uma boa história, recitarmos poesias, cantarmos uma velha cantiga, ou então, criarmos novas histórias, outras poesias e inusitadas canções. Conteúdo: 1. Leitura e debate de textos teóricos que forneçam base para questões tais como: Letra, voz, memória, identidade e cultura. 2. Reflexão e debate: O diálogo entre o Contador de histórias tradicional e o urbano. O contador urbano – Um ressurgimento? Onde estão quais suas vozes? Por que tanto interesse atualmente na formação de contadores de histórias? As narrativas orais como registro? Há uma intenção na escolha do repertório do contador de histórias? 3. Exibição do curta – Dona Cristina perdeu a memória. 4. Memória e oralidade – o contador como veículo da memória. Slide 5. Cochicho – Memória compartilhada. 6. Apanhadores de histórias – Memória registrada. 7. Leitura compartilhada – O banquete dos deuses ou Meu avô Apolinário. 8. Celebrando a ancestralidade – Danças e cantos da etnia Tembé. Metodologia: Todo o conteúdo será desenvolvido através de reflexões e vivencias sobre a valorização da literatura oral. Público-alvo: professores, educadores, bibliotecários e interessados na arte da palavra. Duração: 04 hrs Currículo Resumido Mestranda pela Universidade do Estado do Pará, na linha de pesquisa Saberes Culturais e Educação na Amazônia; Contadora de histórias do Grupo Cirandeiros da Palavra; Participante do Grupo de Pesquisa Culturas e Memórias Amazônicas/CUMA, da Universidade do Estado do Pará e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Infância e Educação Infantil na Perspectiva Histórico-Cultural/GEPEHC, da Universidade Federal do Pará- Membro da Rede Internacional de Contadores de Histórias- Cuetacuentos; Membro do Movimento de Contadores de histórias da Amazônia. Idealizadora a organizadora do I e II Encontro de Contadores de histórias da Amazônia e do I e II Festival Pororoca de histórias em parceria com a Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves.
3. Oficina 03: Contação de Histórias de Malba Tahan Facilitadora: Profa. Olga Arantes Pereira e Grupo de Contadores de Histórias “Malba Tahan” Justificativa: As histórias infantis de Malba Tahan – tanto aquelas registradas na “A Arte de Ler e Contar Histórias” quanto as publicadas em jornais e encartes da Maizena –transmitem lições de respeito, solidariedade, justiça, verdade, responsabilidade, lealdade, bondade; atitudes éticas indispensáveis aos educandos/educadores do nosso tempo. Revisão de Literatura O educador Júlio César de Mello e Souza Malba Tahan (1895-1974) afirma que o cultivo das histórias remonta a época muito afastada, Do estudo de duas obras de Ivani Fazenda (1993,1994), tecemos o arcabouço teórico para a formação de professores contadores de histórias, pautados na troca efetiva de saberes, na instauração do diálogo e na elaboração das atividades interdisciplinares para as histórias infantis selecionadas. Problema As histórias não são mais as convidadas ilustres das salas de visitas, dos quartos das crianças e das salas de aula. Atualmente, um número considerável de crianças cresce sem nunca ter ouvido histórias. Hipóteses Enquanto educadores, formadores de professores da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, precisamos resgatar não só a arte de ler e contar histórias, mas a magia que delas emana, a imaginação que as mesmas suscitam, os valores éticos e morais que elas propagam. Objetivo Um mundo melhor espera por seres humanos comprometidos não só com a sua cultura e com a história de seu grupo social, mas principalmente com a transmissão de valores éticos encontrados em muitos contos e fábulas da sabedoria popular. Metodologia Três momentos – teórico, pedagógico e prático. Considerações Nestes anos de estudo e pesquisa sobre as histórias Infantis de Malba Tahan, tivemos a oportunidade de constatar que apesar de mais de cinco décadas terem se passado desde a primeira edição de “A Arte de Ler e Contar e Histórias”, a teoria apresentada pelo educador nesta obra está em plena sintonia com alguns teóricos do nosso tempo (Fanny Abramovich, Nelly Novaes Coelho, Marisa Lajolo, Regina Zilberman). Contando histórias – de Malba Tahan ou de outros autores - estamos ensinando a criança a escutar, a pensar e a ver com os olhos da imaginação. “A narrativa é um antiquíssimo costume popular que podemos resgatar da noite dos séculos e fazê-las renascer” (Abramochi, 1994: 24) não só na formação inicial dos professores de Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, mas também nas escolas e em outros espaços não escolares. Currículo Resumido Graduada em Filosofia, Pedagogia e Língua Portuguesa, Especialização em:Cinema e Mestre em Educação(2006). Professora Titular das Faculdades Integradas Teresa D'Ávila e Diretora do Cine Clube de Lorena,curadora do Cinema Criança há 20 anos e do Festival Gato Preto há 11 anos . Escreveu por vários anos na imprensa local e foi agraciada com o Prêmio Guaypacaré, por sua coluna intitulada "Profissão:Professor". Co-autora do Livro de Todos( Bienal do Livro de 2008). Autora do livro "A Imagem na sala de aula: um olhar" (2009) e membro da Academia de Letras de Lorena, cadeira nº 16, patrono Conde José Vicente de Azevedo. Diretora do Cine Clube de Lorena (cofundadora, em 1964), realiza anualmente o Cinema Criança e o Festival Gato Preto ( vídeos ).
4. Oficina 04 - Ler e Contar, Contar e Ler Facilitador: Francisco Gregório da Silva Filho Ementa: Ouvir, contar, ler e ver. As narrativas e as diferentes práticas leitoras. O texto, a oralidade, as imagens e as escrituras. A ação, reação e interação dos contadores de histórias e seus públicos. A leitura em voz alta. A relação espacial e o corpo/voz. Dinâmicas de ações dramáticas. Apresentação de filmes de animação. Objetivo A proposta da oficina é promover uma experiência de sensibilização com pessoas de diferentes áreas e interesses para uma prática de ouvir e contar histórias. Metodologia Leitura de textos, contações de histórias, apresentação de audiovisual (documentários sobre o tema), exercícios de práticas de leitura e de contação. Currículo Resumido Francisco Gregório Filho é contador de histórias e escritor. Desenvolve oficinas de formação de contadores de histórias há mais de 25 anos no Rio de Janeiro e em outras cidades do país. Publicou livros de histórias para leitores infanto-juvenis e para adultos; também escreve artigos para jornais e revistas sobre práticas leitoras e a ação de contar histórias. Foi o primeiro coordenador do Proler entre 1992 e 1996. Gestor de programas e projetos com as diferentes linguagens artísticas e a formação de leitores. Nasceu em Rio Branco, no Acre, onde foi Secretário de Cultura do Estado por duas vezes. Alguns de seus livros: Dona baratinha e outras histórias, pela Rocco; Lembranças amorosas, pela Global e Ler e contar, contar e ler, pela Letra Capital.
5. Oficina 5: Contando Histórias de “Índio”? Facilitadores: Cristino Wapichana (RR), Edson Krenak (MG) e Tiago Hakiy (AM) Ementa: Qual será a verdade por trás da afirmação acima? Como compreendemos os povos indígenas brasileiros? Temos conhecimento suficiente para entender a complexa rede de informação que cerca a arte de contar história por parte dos povos indígenas? Podemos chamar as histórias tradicionais de “histórias de índio”? A proposta da oficina é promover uma experiência de sensibilização com pessoas de diferentes áreas e interesses para uma prática de ouvir e contar histórias. Além disso: - Sensibilizar a todos que se interessem pela arte de contar histórias e da importância da cultura indígena na formação do indivíduo, quer como instrumento de autoconhecimento, quer como ferramenta de ensino ou pesquisa; - Propiciar conhecimento e reflexão sobre as diversas formas de que os povos indígenas trabalhar com a arte palavra, da narrativa, da poesia e da música; - Apresentar a experiência de contar histórias e ouvir histórias como uma das possibilidades de se romper o confinamento cultural, os pré-conceitos e a desinformação, facilitando a imaginação criadora e ética como fonte de ensinamentos. - Promover a leitura. Conteúdo programático A) Apresentação: Por que povos tradicionais contam história? B) A voz, o corpo e a palavra: o sentido da vida; C) Poesia e Memória Cultural: nossos amores; D) A música indígena tradicional e contemporânea na contação de histórias; E) Narração de histórias tradicionais de vários povos indígenas do Brasil. F) Currículos Resumidos Cristino Wapichana - é natural de Boa Vista Roraima, Músico e Compositor e escritor premiado, cineasta, e produtor do Encontro de Escritores e Artistas Indígenas - Vencedor do 4° concurso Tamoios de literatura pela FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil 2007 com o Texto “A Onça e o Fogo”. Menção Honrosa 2014 do concurso Tamoio. Indicado ao Prêmio da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da Republica 2008 e 2014, pelos trabalhos relevantes em prol da cultura indígena brasileira. Condecorado com a Medalha da Paz-Colinter. Edson Krenak - Graduado em letras pela universidade federal de São Carlos e Mestre em estudos literários pela mesma universidade. Ganhador do concurso Tamoios 2014 promovido pela Fundação Nacional do Livro para Crianças e Jovens (FNLIJ). Tiago Hakiy - É de Barreirinha Estado do Amazonas. Descende do povo Mawé. Viaja por vários lugares do Brasil, participando de eventos literários, para divulgar cultura indígena e a literatura que nasce no coração da floresta. É poeta, escritor e contador de histórias e autor dos livros: AWYATÓ POT: HISTÓRIAS INDÍGENAS PARA CRIANÇAS – Editora Paulinas – GUAYNÊ DERROTA A COBRA GRANDE Editora Autêntica –CURUMINZICES – Editora Leya – CURUMIM – NOITE E DIA NA ALDEIA - TUPANY UM MENINO MAWÉ - Editora Positivo -IWAIPOÁB: o verdadeiro encontro de amor – Editora Edebe
Conta-se que um fazendeiro, dono de excelentes cavalos de muita valia, nos trabalhos de sua propriedade rural, recebeu um dia a notícia de que o preferido dele, um alazão forte e muito bonito, havia caído num poço abandonado.
O capataz que lhe trouxe a má notícia estava desolado porque o poço era muito fundo e pouco largo e não havia como tirar o animal de lá, apesar de todos os esforços dos peões da fazenda.
O fazendeiro foi até o local, tomou tento da situação e concordou com seu capataz: não havia mais o que fazer, embora o animal não estivesse machucado!
Não achou que valia a pena resgatá-lo, ia ser demorado e custaria muito dinheiro.
Já que está no buraco - disse ao capataz - você acabe de enterrá-lo, jogando terra em cima dele. Virou as costas, preocupado com seus negócios, e os peões de imediato começaram a cumprir a sua ordem. Cinco homens, sob o comando do capataz, atiravam terra dentro do buraco, em cima do cavalo.
A cada pazada, o alazão se sacudia todo e a terra ia-se depositando no fundo do poço seco. Os homens ficaram admirados com a esperteza do animal: a terra ia enchendo o poço e o cavalo subindo em cima dela!
Não demorou muito e o animal já estava com a cabeça aparecendo na saída do poço; mais algumas pazadas de terra e ele saltou fora, sacudindo-se e relinchando, feliz!
MORAL DA HISTÓRIA
Não aceite a terra que jogam sobre você os que querem enterrá-lo em vida; reaja com confiança, mexa-se, procure o seu espaço, suba sobre essa terra e aproveite para subir cada vez mais, agradecendo os que, pensando feri-lo, estão lhe dando a oportunidade de crescer material e espiritualmente.
Quando pensarem que você "já era", a sua vitória será ainda mais espetacular .
Arrisque! Viver É arriscar. O homem que vai mais longe é o que, em geral, está disposto a fazer e a arriscar.
É uma hipocrisia apoiar adaptações de textos literários para facilitar a leitura. Por que ler nunca é fácil
LUÍS ANTÔNIO GIRON
Chego tarde à discussão sobre a legitimidade de adaptações de obras literárias do passado para facilitar a leitura das novas gerações. Mas não tenho como desviar de um assunto que só se torna relevante porque o Brasil continua a ser o país dos vira-latas (ou do neo-viralatismo) , dos espertalhões e do triunfo da ignorância. As adaptações de livros clássicos não passam de uma camada do aterro sanitário que entulha a cultura do país desde que os portugueses rezaram a Primeira Missa em Porto Seguro e constataram que a população local se mostrava dócil à evangelização. Dá asco pensar no tema, mas vou tapar o nariz e tentar manter a lucidez.
As políticas do livro e da educação nacionais são infames e parece que não irão melhorar nunca. Dessa forma, o futuro de nossa cultura já está traçado: caímos na tentação da visão antropológica que rebaixa o indivíduo a sua condição primitiva e não permite que ele saia do estágio folclórico e étnico a que está condenado desde o início dos tempos. Bons selvagens, os brasileiros são obrigado a celebrar as “manifestações culturais” mais primárias como se a população estivesse condenada eternamente à fogueira de São João e ao trio elétrico.
Ora, esse ambiente sulfúrico torna coerente e até elogiável a facilitação da leitura – prefiro chamá-la de vulgarização. Afinal, para que submeter os jovens leitores ao sacrifício de ler Homero, Cervantes, Graciliano Ramos e Machado de Assis quando tudo pode ser resolvido numa narrativa direta e concisa no estilo? A vulgarização poupa trabalho do aluno e rende uma boa grana às editoras e aos autores das adaptações de obras de domínio público – que, do contrário, sairiam de graça para o leitor. A ideia de que rebaixar o ato de ler é um gesto culturalmente correto constitui um dos dois argumentos em confronto hoje na discussão das adaptações. O outro preconiza que os textos clássicos não podem ser alterados, pela própria sacralidade artística que eles contêm.
Obviamente, defendo o segundo argumento – embora não acredite na arte como religião. Se valer um testemunho, perdi muito tempo na minha infância e adolescência lendo Homero, Cervantes, Jack London e outros autores clássicos em adaptações de medalhões brasileiros como Clarice Lispector e Carlos Heitor Cony. Isso porque eu deveria ter lido os textos originais, ou pelo menos as traduções diretas. Acabei lendo bons textos de segunda mão de Cony e Clarice que não substituíram os originais. Antes, desviaram minha atenção.
É claro que não havia naquele tempo (como não há agora) edições didáticas desses textos. A produzir introduções, ensaios e notas sobre obras canônicas em edições críticas, as editoras brasileiras sempre preferiram a lei do menor esforço. Em vez de preparar e orientar o jovem leitor, as editoras lhe entregam edições embonecadas e facinhas. O resultado é o que vemos: cada vez mais jovens lendo baboseiras para jovens leitores – a chamada literatura para jovens adultos, uma literatura-salgadinho. O resultado é que os jovens adultos (e crianças) ignoram com crescente soberba os autores importantes. Afinal, para que enfrentar a dieta pesada de Guimarães Rosa se é possível devorá-lo em versão nacho com queijo?
Os jovens nutridos nessa formação rala e prejudicial ignoram também que ler é difícil. Trata-se de uma atividade que precisa ser elaborada ao longo dos anos. Envolve aprendizado, treinamento e, no caso do texto literário, vivência, intimidade com a natureza humana. Se a maior arte dos professores do ensino fundamental e médio do Brasil gostasse mesmo de ler, os estudantes entenderiam que o esforço vale a pena. Mais, que ler é mais compensador que jogar videogame ou assistir a uma série de televisão.
Tudo isso me faz pensar em postar as hashtags #NãoToqueemMachado, #NãoToqueemHomero e #NãotoqueemCervantes e assim por diante. Só de pensar que alguém possa alterar os textos canônicos me dá calafrios. Que dizer quando um professor apresenta um projeto desses ao governo federal e ganha milhões para executar Machado de Assis em praça pública em nome do consumo fácil das tribos autóctones analfabetas funcionais? É o último círculo do inferno. Não toquem na sutileza de Machado de Assis, na concisão de Graciliano Ramos e na complexidade de Guimarães Rosa. Tirem suas mãos porcas da pouca literatura que nos resta!
"Como é engraçado! Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço. Uma fita dando voltas? Se enrosca, mas não se embola. Vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer lugar onde o faço. E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço. Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido. E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço. Ah! Então, é assim o amor, a amizade. Tudo que é sentimento? Como um pedaço de fita? Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade. E quando alguém briga, então se diz - romperam-se os laços. E saem as duas partes, igual aos pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço. Então o amor é isso… Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca. Porque, quando vira nó, já deixou de ser um laço." Mário Quintana."
Ruth Guimarães. Uma dama. Uma fada da literatura. Simplicidade e sabedoria marcam sua linda prosa." Uma dama. Uma fada da literatura. Simplicidade e sabedoria marcam sua linda prosa."
“A gente passa nessa vida como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez.”
Autora dessa e de muitas outras frases, artigos, crônicas, romances e contos, dona Ruth Guimarães morreu hoje em Cachoeira Paulista, semanas antes de completar 94 anos, deixando triste uma legião de pessoas que encontrou, durante anos, prazer e ensinamento em seus escritos. Dona Ruth, que já era imortal pela Academia Paulista de Letras, agora é uma estrela. Das mais brilhantes.
Vai, deixando mais, bem mais que o rastro de uma canoa.
'Uma dama. Uma fada da literatura. Simplicidade e sabedoria marcam sua linda prosa."
Ruth Guimarães |3ª parte | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa
O Lince – Teve que se virar muito cedo...
Ruth Guimarães – Eu tive que me virar muito cedo e não tinha muito apego assim a lugar nenhum não. Eu morava na casa do meu avô, aqui mesmo em Cachoeira Paulista, mas se fosse para ir fazer algum curso, alguma coisa em algum lugar, e o meu avô, não sei por que, ele tinha predileção por mim. Eu era a neta da predileção dele e, tudo o que eu queria fazer, ele permitia e eu quis estudar em São Paulo, ele deixou (risos)... Fui eu pra São Paulo (risos).
O Lince – Ainda bem que deixou!
Ruth Guimarães – Ainda bem que deixou. (risos)
O Lince–Pois bem! E a questão do demônio do subconsciente das pessoas. Como é que a senhora vê esta questão?
Ruth Guimarães – O problema estava no meu subconsciente. Eu morava numa fazenda... casarão... uma imensidade... tinha vinte e seis cômodos a casa. Um dos cômodos era um salão que dava para se fazer baile. Se faziam bailes lá na minha casa, e a minha mãe tomava conta lá da fazenda, morava lá meu pai também. Tinha quatro empregadas para poder gerir a fazenda. Tinha a cozinheira, a copeira, a arrumadeira,...
O Lince–E a faxineira?
Ruth Guimarães – Não, não, não era a faxineira. A faxineira vinha de fora. Não morava lá. E a outra era a lavadeira. A lavadeira se desdobrava em duas: era a lavadeira e a filha. Então, ia uma vez por semana, e uma vez por semana em casa se fazia uma espécie de mutirão para fazer doce. Então, se fazia doce em calda e doce em cacheta. E, nestes dias de descascar marmelo, descascar pêssego, figo... era dia de contar história. E o pessoal contava história de arrepiar.
O Lince–Na beira do tacho.
Ruth Guimarães – Não. Descascando fruta. Quando era a hora do tacho, não me deixavam ficar na cozinha, porque era uma mexeção de tacho. Tudo quente e gente correndo pra lá e pra cá... aquelas águas lá. Então, eles não me deixavam ficar. Porque também eu fui muito arteira, Nossa Senhora! “Dona Maria, tira a Ruth daqui que ela é muito arteira!” (risos) Eles não me deixavam ficar na cozinha. E com isto, eu me familiarizei com todo o folclore de horror, e o diabo era um personagem importantíssimo. Era o que aparecia em tudo. Eu sabia como é que a gente chamava o diabo, como é que entregava a alma pra ele, como é que tinha que rezar, como é que fazia invocação, as árvores que ele freqüentava – a figueira brava, a peroba. Então, isto foi ficando entranhado, isto foi se fazendo lá no meu inconsciente. Eu não acreditava em Deus, nem sabia o que era Deus, porque eu ainda não tinha tido nem catecismo e já sabia quem era o diabo. Então, eu tive um inconsciente moldado pelo demônio e eu tive que escrever um livro sobre o demônio para me ver livre dele. Só depois que eu escrevi este livro é que o diabo deixou de me incomodar, porque mesmo não acreditando, porque eu não acredito, mesmo agora, a religião não conseguiu repor o diabo no lugar... a minha religião... nem tenho religião nenhuma. Mas, o diabo ocupava um lugar muito grande e me dava ordens. Eu era apavorada... Entrar num lugar escuro assim... Se eu lembrasse que o diabo não gosta de escuro, não gosta de luz... então eu tinha aqueles pavores. Quase que foi um caso de internação.
O Lince–De psicanálise....
Ruth Guimarães – De psicanálise, não. De psiquiatria. (risos) É. Era apavorada. E então, como eu ainda tinha, mesmo na minha linguagem, de falar do diabo, contar a história do diabo, estava me incomodando. Aí eu escreviOs Filhos do Medo e me libertei. (risos)
O Lince–E economizou uma série de consultas (risos).
Ruth Guimarães – Isso. E ficou um bom livro, porque é muito sincero. É muito vivo. Meu Os Filhos do Medo é muito vivo porque eu vivi todas as coisas lá.
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O Lince – Como é que a senhora vê, hoje, essa relação das pessoas com a literatura, como é que a senhora vê, hoje, o brasileiro como leitor?
Ruth Guimarães –Eu não vejo o brasileiro como leitor (risos). Eu não conheço nenhum brasileiro leitor (risos). Eu leio livro à noite, mas não conheço ninguém que leia mais de dez livros por ano.
O Lince – Que indicações a senhora faria para quem quer realmente entrar em contato com a literatura de qualidade, com a boa literatura?
Ruth Guimarães –Que humildemente vá lendo estes livrinhos aí. Vamos ler o velho Machado, vamos ler o Mário de Andrade, vamos ler Lima Barreto, vamos ler Eça de Queiroz,...
O Lince – A senhora já falou aqui pra gente sobre a importância do trabalho. Eu acredito que essa seja talvez a grande receita para ser alguém bem-sucedido, faça o que fizer. Agora, além de muito trabalho o que a senhora sugeriria para aqueles que queiram, não digo se tornarem escritores, mas se aprimorarem no processo de escrever? Existe alguma dica que a senhora possa aproveitar da sua experiência pessoal?
Ruth Guimarães –A gente só aprende com os outros, né! Esta história de autodidatismo, isso aí é tudo balela porque, se a pessoa não sabe, como é que vai aprender consigo? Só pode aprender com quem sabe. Então procurar boas escolas. A boa escola. E trabalhar lá na escola com honestidade. Trabalhar sempre.
O Lince – A senhora também nos disse, quando chegamos, que já conhecia o Jornal O Lince. Agora uma questão muito pessoal, o que a senhora tem achado do jornal?
Ruth Guimarães – Ah, muito bem feito... muito bem feito. A gente vê que por trás d’O Lince está uma pessoa que pensa, que tem idéias. E a pessoa só tem idéias quando tem conhecimento. Antes de ter conhecimento, ter idéia como? É só uma repetência, né! A pessoa vive por procuração.
O Lince – Vou tomar isso como um elogio e estímulo!
Ruth Guimarães – E é. É. Gostei muito, aprovei muito, e estou acostumada a ver esses jornalecos por aí. Eu recebo muito jornal.
O Lince – E para concluir, Dona Ruth, gostaria que a senhora ficasse à vontade para fazer as suas considerações que, por ventura, o entrevistador, por ignorância, deixou de perguntar e a senhora gostaria de falar.
Ruth Guimarães – Perguntou bem. Eu falei sinceramente, falei à vontade. As perguntas foram perguntas que me deram ocasião de confessar (risos)... E isso também é um elogio.
. Uma dama. Uma fada da literatura. Simplicidade e sabedoria marcam sua linda prosa." Entrevista gravada em 29.08.08, na residência da autora, em Cachoeira Paulista – SP
O Lince – Estamos na residência da escritora Ruth Guimarães, em Cachoeira Paulista-SP, para uma entrevista exclusiva para o Jornal O Lince. Dona Ruth, muito bom-dia! Eu gostaria de começar fazendo um questionamento à senhora que é de praxe: Como começou essa ligação da senhora com o escrever, com a escrita, enfim, com a literatura de um modo geral?
Ruth Guimarães – Eu acho que isto vem da minha família. Meu pai tinha uma biblioteca, então, quando eu era bem pequena, eu já brincava com livro, já folheava livro. Quando eu estava na escolinha da roça, já lia os livros do meu pai, apesar de que ele tinha só o Machado de Assis e outros da mesma época, mas a gente lê o que tem, né? Lê o que pode. Li Monteiro Lobato. Monteiro Lobato foi o meu iniciante.
O Lince – Depois desse primeiro contato, o que levou a senhora a buscar um curso de Letras Clássicas, o que levou a senhora a buscar essa aproximação maior com a literatura? Teve algum fato marcante ou esses primeiros contatos com Machado, com Monteiro Lobato é que foram a provocação, o estímulo bastante para isso?
Ruth Guimarães – Eu tive mãe muito imaginosa e gostava muito de ler romance. Em Lorena, eu estudei no começo do ginásio em Lorena, e em Lorena havia uma família, Di Domênico, que alugava livros a 200 réis cada um, por oito dias, e como minha mãe gostava muito de romance, ela me mandava fazer uma assinatura e trazer uns quatro ou cinco livros pra casa. E aqueles livros corriam, mas eram livros assim: Delly... eu nem me lembro mais os autores... esses livrinhos pra moça, porque era isso que minha mãe lia, e eu lia também, mas, com a continuação de leitura, eu fui apurando a maneira de escrever, ficou fácil pra mim escrever. A prática né! Então, tendo prática de escrever, quando havia aula de redação na escola, a minha redação, ainda mais que eu contava com a imaginação da minha mãe que eu herdei... eu tenho muito imaginação... então, com essa prática de ler romance, eu fiquei com uma facilidade muito grande de escrever e quando havia aula de redação que a professora mandava escrever historinha, mandava descrever a sala de aula, claro que eu tinha uma provinha ou um trabalho diferente dos outros trabalhos por causa da minha prática. E aí as professoras se entusiasmavam e mandavam pro jornalzinho da cidade. Chamava-se “O Cachoeirense”. Então, com dez anos, eu escrevia n’O Cachoeirense (risos). Pena que eu não tenho, não guardei, não me incomodei com isso pra ver que porcarias que eu escrevia (risos).
O Lince – Para uma criança de dez anos, com certeza, tinha muita qualidade.
Ruth Guimarães – Pois é! Porque eu era constantemente solicitada pra escrever. Tinha um cantinho lá pra mim no jornal da cidade. E quando eu estudei em Guará, eu tinha uns treze anos, por aí, doze ou treze anos, aí eu escrevia pro jornal da cidade, porque eu fui aluna do professor Jerônimo de Aquino (graaande professor!), e ele me ensinou a métrica. Olha! Ninguém estava aprendendo métrica, só eu (risos). A minha vida foi orientada no sentido de escrever.
O Lince – Então, obviamente que estes contatos desde a família até a escola, escolas...
Ruth Guimarães – A escola me ajudou muito... porque me tirou da minha casa. Eu fiquei sem pai e sem mãe cedo e fiquei com a minha avó materna. Minha avó era caipira, mineira, contadeira de história. Veja como as coisas vão se acomodando. Quando as coisas têm que ser parece que tudo se encaminha nessa direção. Então, eu fiquei contadeira de história também, e contadeira de história tanto falando como escrevendo. Eu sou contadeira de história até hoje.
O Lince – E a partir daí, então, o contato da senhora com o mundo acadêmico e, por conseqüência, o contato com a literatura universal mais ampla, mais vasta. Como é que a senhora avalia essa formação acadêmica na definição dos seus rumos literários?
Ruth Guimarães – O que acontece é que toda gente que tinha contato comigo, contato com a minha família, o divertimento era me ensinar coisas. Cada um me ensinava aquilo que sabia e logo cedo eu peguei uma experiência grande nesse sentido e mudei a escolha de livros, aí eu pude escolher... aí não eram mais aqueles livros de moça, aquela literatura pra moça que era M. Deli e outros. Eu comecei a ler literatura mais séria. Mas literatura mesmo e não historinha.
O Lince – E a partir daí, quando que a senhora decidiu escrever o primeiro livro, escrever a primeira obra?
Ruth Guimarães – Eu não decidi escrever um livro não, o livro se escreveu sozinho (risos) porque eu escrevi uma coisa e outra, e quando eu fui para São Paulo, fui procurar os artistas. Veja só que atrevimento! Eu tinha dezessete anos, fui pra São Paulo, fui trabalhar, e gostava de escrever, e fiz uma visita a Abner Mourão do Correio Paulistano, defunto Correio Paulistano. O Abner Mourão leu o que eu escrevi, com aquele jeitão dele, botou os dois cotovelos em cima da mesa, da cátedra dele, de trabalho, e falou pra mim assim: “Foi a senhora mesmo que escreveu isso aqui?” Então aquele “mesmo” me esporiou, né? Claro que fui eu que escrevi, e considerei como um grande elogio: “foi a senhora mesmo que escreveu isto?” E publicou, e publicou.
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E isto foi um estímulo porque eu falei: Se o grande Abner Mourão considera bom, então tá bom, então tá bom, então eu vou escrever, e continuei escrevendo.
O Lince – A gente vê também em todo o trabalho da senhora um grande apreço pelas traduções, especialmente Dostoiévski,...
Ruth Guimarães – ... eu ganhava o extra fazendo tradução do francês. Dostoiévski eu fiz do francês, de segunda mão... fiz Balzac, fiz Prosper Mérimée, fiz Oscar Wilde, fiz uma porção de traduções. Traduzi do italiano, traduzi do espanhol,...
O Lince – E desse contato com originais ou traduções a partir textos de “segunda mão”, a senhora foi costurando, alinhavando a sua própria forma de...
Ruth Guimarães – Muito mais fora da USP do que dentro. Muito mais. O Diaulas, da Cultrix, ele dizia pra mim assim: “Você que devia me pagar pra fazer a tradução para a editora, porque o que você está aprendendo aqui você não aprendia em nenhuma escola do mundo”. Pois é!
O Lince – E dessas traduções, desse trabalho fora da universidade, somado ao trabalho acadêmico, como a senhora definiria suas maiores influências literárias? Quais são os autores da sua predileção, quais são os autores que mais influenciam sua obra?
Ruth Guimarães – Bom, o que eu admiro mais e com quem eu concordo no total é Machado de Assis... Machado de Assis... não tem outro pra ele. Eu gosto do Mário de Andrade, por exemplo; gosto muito do Guilherme de Almeida, apesar de que eu não o considero um grande poeta, é um grande escritor de versos (risos)... tem uma grande música e uma grande beleza também, mas é pouco profundo, né? Ele é mais no ritmo do sambinha (risos).
O Lince – Há poucos dias, saiu na Folha de São Paulo, um artigo remetendo a uma pesquisa de um professor de uma universidade do Rio Grande do Sul comparando Machado de Assis e Borges e fazendo críticas bastante pesadas ao modernismo, a Mário de Andrade, a Osvald. Como é que a senhora vê os escritores modernistas no Brasil?
Ruth Guimarães – São muito bons... mas são muito bons. O maior de todos é o Mário. Eu fui aluna do Mário! Porque, quando eu escrevi Os Filhos do Medo... eu estava escrevendo Os Filhos do Medo e não tinha pra quem mostrar... e não tinha uma pessoa que me dissesse... que me dissesse alguma coisa, que fizesse alguma crítica contundente, uma crítica que fosse fundo do que eu estava escrevendo. Escrevi e não sabia se aquilo tava... se era bem assim ou se não era. Aí eu procurei o Mário e tive várias sessões com ele, ele se interessou muito, ele era uma criatura sempre disponível pra gente... e fez umas críticas dolorosas, mandou cortar, mandou jogar fora... (risos). E depois ele disse pro Fernando Góes que era jornalista e era amigo comum, dele e meu: “Sabe aquela menina”, porque eu tava com vinte anos ou menos, e ele falou: “Aquela menina sabe, oh Góes, ela reagiu à altura”. Isto, na fala do Mário de Andrade, foi um estímulo pra mim, foi um empurrão pra cima, e daí que eu fiquei mesmo pesquisadora e estudando folclore, sociologia. Fiz sociologia com o Bastidinho e curso pós na USP. Porque, sabe, eu tenho essa idéia de que quando a gente faz uma coisa, ou faz bem feito ou não faz. História de ligar Internet aí, e copiar, não dá certo. A gente dar opinião sem estar com uma base boa, também, é até um pecado.
O Lince – Temerário.
Ruth Guimarães – Temerário. Então, o que eu faço, eu faço bem feito, o mais bem feito possível. Quando foi pra escrever os livros religiosos, que eu escrevi para a Cultrix também, eu levei dois anos fazendo Teogonia, pra depois pegar o livro e escrever, que era pra dar uma súmula, um apanhado da religião ou de cada religião direito né, o que era. Então sabia o que era Pentecostes, o que é transubstanciação, o que é que faz a diferença entre o evangélico e o católico, mas não diferença de fé, diferença de conhecimento, por que a religião católica se apóia em Cristo sem discutir se Cristo existe ou não existe, ou existiu como homem ou existiu como Deus, mas a filosofia da religião.